Eu, tu, eles

01/08/2011

Acho que nome num divia de ser grande, divia de ter quato letra que nem a palavra mesmo, Nê-Ó-Mê-É, que dá nome a tudo e num carece de ser inorme.
Gente só basta ser gente pra ser indentificado. Ôta palavra cumprida também “indentificação”. E quando que alguém pede, fala só de RG ou CPF, assim, de poucas letras. Mas, de verdade, é numro que não acaba mais. Por causo de quê tanta letra e numro? Se num tem gente ingual ôta? Inté gêmio se parece, mas num é. É mais fáci nome ingual ôto, do que gente ingual ôta.
Quanto João da Silva Santos fii de Maria da Silva Santos num deve de ter? Inté aqueles que gosta de nome inventado deve de ter uns par ingual também, que nem Eviclerciana, fia do finado Adoniraldo que dipois de grande ainda ganhô mais indentificação. Batizada cum nome grande desse e ainda todo mundo carece de falar “fia do finado Adoniraldo”. Garanto que se o pai chamasse Adão, quato letra, ia botar o nome da fia Eva, que só tem três.
Pra ingrandecer mais a história botô o nome do marido quando casô e virô Eviclerciana Santos Souza Gomes, fia do finado Adoniraldo, muié de Zé Nilson, que ainda tem dois nome.
Mas eu vou é de pará de falar do nome dos oto que tem causo pra num cabar mais. Parece que o povo acha poco ter nome, sobrenome e filiação e ainda inventa mais indentificação…Antes só sabia que inxistia branco, preto e índio. Agora dissero que minha cô é parda. Deve de ser pra raciado com pardal, só pode. E por falar em cria, teve otro dia lá na iscola que dissero que meu fii era minino infiminado. Num sei nem o que qué dizê, mas gritei logo que o nome dele era Ji-Ó-Si-É, Jusé, e só. E que se fosse pra botá apelido nele que pudia ser Zé, de duas letra. Assim como eu, que só sô “eu”. E posso ser “tu” pra ocê que cabou de chegar.

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Pede, Flor!

19/06/2011

Na falta da toalha quadriculada, levaram uma de bolinhas mesmo. Ao chegarem no parque, escolheram o lugar mais florido para montar o piquenique. Mas antes de abrirem a cesta, empunharam suas câmeras e começaram a fotografar o lugar.

Entre cliques e risos, buscaram as flores mais bonitas e os bichinhos mais exóticos. Foi quando ela encontrou uma esperança pousada numa rosa graxa. Tirou a flor com bastante cuidado e entregou-lhe:

_ Pra você! – disse sorridente.
_ Uma flor e um bicho?
_ Uma esperança, pra dar sorte.

Pegou com receio.

_ Agora faz um pedido.
_ Hum…
_ Pede! – ordenou. – Antes que ela vá embora.

Fechou os olhos e quando abriu só havia a flor.

_ Pronto. Ela foi buscar seu pedido – completou satisfeita.
_ Mas meu pedido já está aqui – Disse baixando os olhos para a flor.
_ Pediu uma flor?
_ Não. Você com uma flor – sussurrou, enquanto ajeitava a flor no cabelo dela.

A mão ficou no cabelo, os olhos ficaram nos olhos e o clima ficou no ar.

_ Vocês não viram a placa?

Viraram sem entender o motivo da interrupção. O guarda parecia gigante de baixo para cima. A flor que havia escorregado de seu cabelo estava esmagada sob as botas do grande homem.

_ Ali – apontou sem emoção para um ponto distante.


“FAVOR NÃO ARRANCAR AS FLORES”


_Por que você arrancou? – inquiriu o guarda.

Ela respondeu prontamente:

_ Porque uma flor na mão tem mais poesia que uma flor no pé.

Relacionamento

16/06/2011

É como um sofá.

Quando está novo, parece o lugar mais aconchegante do mundo. Os donos contam as horas pra chegar em casa e assistir um filminho debaixo das cobertas, comendo uma pipoquinha.

A família e os amigos também gostam dele, elogiam a aparência e sentem-se confortáveis em usá-lo.
Mas as pessoas, o tempo, o uso, vão deixando suas manchas e suas marcas. Mesmo assim, está udo bem, não é nada que uma manta não resolva, ninguém vai notar os defeitos. O importante é que ele ainda é confortável.

Problema mesmo são os donos do estofado. Acreditam que o tempo o deixa mais forte e começam a ficar desleixados, a não se importar se estão sobrecarregando demais o velho sofá e se aquela mudança vai ou não abalar sua estrutura. Entretanto, sem demora, ele mostra que não é de ferro e com espetadas e rangidos lamuriosos dá o seu recado. Cobrança que não passa despercebida pelos proprietários, pois sabem que os de fora também vão perceber. Debatem por um tempo, pra ver qual é a solução mais viável, e apelam para a reforma. O sofá tem grande valor sentimental, não pode ser dispensado tão facilmente. E os donos sabem também que consertar é menos custoso que trocar por outro.

Durante a reforma, a estrutura recebe uns reparos, os buracos são novamente preenchidos e o sofá ganha até uma cor mais nova e mais viva que a anterior. O “novo” até que agrada por um tempo, mas as peças já não são tão boas como as originais e fazem lembrar que ali ainda está o antigo com seus defeitos. Um pouquinho mais de pressão e os velhos buracos reabrem, ainda maiores e mais incômodos. Mas ninguém quer ser o primeiro a apontar as novas falhas, ninguém quer se responsabilizar pelo que não deu certo. Contudo, chega o momento em que não conseguem mais disfarçar, são obrigados a admitir que aquele não é mais o lugar onde querem estar e se desfazem do sofá.

Nós somos Nós

21/01/2011

eu e tu
nós duplos
eu e tu
nós cegos
eu e tu
nós fiéis
eu e tu
nós de sangue
eu e tu
nós de correr para o abraço
eu e tu
somos nós
formando um só nó

Venho vivendo de uma forma um tanto mecânica. Sinto-me como um robô bem programado, executando tarefas diárias dentro dos padrões exigidos e notável apatia. Passo os dias cozinhando a vida em banho-maria.

Também, não tenho bons planos para o futuro. Nada que me dê esperanças. Nada convincente o suficiente para jogar fora o que tenho hoje. Não que tenha muita coisa, ou esteja feliz. Mas também não estou triste. E, considerando as últimas batalhas perdidas para a vida, não sentir dor tem sido uma condição vantajosa. Mesmo que em troca tenha uma rotina sem graça. Poderia dizer sem vida?

Às vezes não sentir nada é bom. Tem sido útil nos últimos meses, estar em paz com a vida. Acomodada e anestesiada.

Mas, como tudo tem um porém, tranquilidade cansa. Percebo que terei de abandonar esse conforto em breve, mesmo sem ter planos para o futuro. Porque não ter emoções é também ser infeliz. Para ser feliz tem que sofrer, tem que chorar.

É por isso, vou pegar uma carona com uma desconhecida que se chama mudança e partir em busca de novas aventuras, brigando novamente com a vida, para conquistar meu espaço nela.

Chega de pensar no futuro. Presente é como vou viver daqui por diante.
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Obs.: Pensamentos intensamente ligados a Tempo de Amor


“É do tempo que quero falar. De como dispomos do tempo. De como somos ansiosos em relação a ele. De como nós não sabemos mais viver o tempo, todo o tempo que o tempo tem. É preciso calma para que as coisas possam fluir do jeito que as coisas são.”

Por Márcio Meirelles

Bobagem

25/09/2010

Minha beleza não é efêmera
Como o que eu vejo
Em bancas por aí

Minha natureza
É mais que estampa
É um belo samba
Que ainda está por vir…

Bobagem pouca
Besteira
Recíproca nula
A gente espera
Mero incidente
Corriqueiro
Ser mulher
A vida inteira…

Minha beleza
Não é efêmera
Como o que eu vejo
Em bancas por aí

Minha natureza
É mais que estampa
É um belo samba
Que ainda está por vir
É um belo samba
Que ainda está por vir
É um belo samba
Que ainda está por vir…

Intérprete: Céu
Composição: Céu

Dona da Verdade

15/09/2010


Quando criança, gostava de investigar a vida das pessoas. Nessa rotina se apresentava boa detetive, sempre descobria aquilo que os outros tentavam esconder. E, como todo mundo mente, freqüentemente surgia um caso para solucionar. E solucionava. Não porque mentira tem pernas curtas, encontrar provas era uma tarefa muito difícil, quem engana logo trata de esconder as pistas. Mas ela sempre as encontrava por se dedicar com afinco.

As mentiras tinham os mais variados motivos, alguns bem perversos até. No entanto, ela não denunciava o mentiroso. Acreditava que a verdade não passava de um ponto de vista. Para ela, o ouvinte é quem deve decidir se a informação é uma verdade. Se não acredita no que lhe dizem, que procure desmascará-la. Mas como, na maioria das vezes, a mentira era confortável para as duas partes, ninguém o fazia. Sendo assim, considerava que não havia culpado, nem vítima. Nunca sentiu vontade de contar, sempre guardava suas descobertas como um segredo de confissão.

Com o passar do tempo, aprimorou suas habilidades e identificava facilmente falhas nas atitudes das pessoas que indicavam a existência de uma mentira, nada lhe escapava. E foi assim, entre um enredo e outro, que aprendeu a contar histórias que não existiram, viagens que não fez, momentos que não viveu, palavras que não ouviu.

Cresceu, virou mulher e sempre que lhe apontavam o dedo para acusá-la de mentirosa, roubava a frase de alguém e dizia: “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”.